JB Alencastro especial para o D9 Notícias
Nasci em 1963 e o primeiro tênis que lembro que usei é o Conga.
Era azul escuro.
No primeiro dia de aula fui de sandália. Depois o colégio disse que tinha que usar um Conga, obrigatoriamente. Meu pai comprou.
Meus colegas pisaram nele novinho. Estava batizado.Adorava jogar bola com ele. Correr e tudo o mais. Fácil de amarrar, só tinha 03 ilhoses, parecia indestrutível.
Ia no judô com ele, depois na natação, também. Só tirava para dormir. Nem me lembro se existiam outras cores.
Tênis de criança. Aí chegou a Copa de 70, que assisti em casa, TV em preto e branco. Brasil foi campeão. Papai falava que o Garrincha era o melhor jogador de futebol do mundo.
O mundo falava que era o Pelé. E eu na minha meninice, achava que era o Jairzinho, que meteu gol em todos os jogos.
O “Furacão da Copa”. Pois bem, logo depois foi lançado o Kichute. Gente do céu! Esse tênis foi marcante em minha vida. Era tão fã dele que eu não sabia se amarrava o cadarço por debaixo da sola, ou cruzado na meia.
Era quilométrico. Preto. Aliás o tênis todo era preto. A língua, a sola, a lona, a ponta, tudo. E como era bom para dar “bicuda”, aquele chute de gente que joga mal e só tem essa saída.
Se eu passava o dia inteiro de Conga eu acho que eu dormia de Kichute. Os cravos no solado eram demais. 04 ilhoses, um a mais do que o Conguinha.
Como eu nadava e tinha lutado judô, as Olimpíadas de 1972 chamaram minha atenção. E o tênis dos japoneses se chamava Onitsuka. Nunca havia visto, nunca apareceu no Brasil.
Mas eu fiquei com aquilo na cabeça. Porque se é japonês, é porque é bom.Daí veio o Bamba. Imitação deslavada do All Star, sonho de consumo de todo adolescente brasileiro. Caríssimo.
Fiquei com o Bamba mesmo, azul. Era uma mistura de Conga com Kichute. Bem resistente também. Eram 05 ilhoses, para quem, canhoto, sempre teve dificuldade para amarrar um tênis, isso era detalhe importante.
Já lutando karatê, meu ídolo era o Bruce Lee. E não é que ele no seu filme – lançado 5 anos depois de falecer – “Jogo da Morte” me aparece lutando de roupa amarela de listra preta, tenis amarelo de listras pretas e nunchaku amarelo e preto.
E no final “dá um pau” no Kareem Abdul Jabar, gigantesco e melhor jogador de basquete na época. Estava com uns 15 anos.
E qual era esse tênis? O Onitsuka Tiger Mexico 66!Fiz de tudo para ter um. Impossível. Nem para meus pais que sempre me davam dois bons presentes por ano: no Natal e no aniversário (em nenhuma outra oportunidade).
Sei que eles procuraram. Nada. Aí já adulto eu vejo uma moça bonita, loira, com praticamente a mesma roupa do Bruce, num filme chamado Kill Bill. Nem vou dizer qual o tênis que ela obviamente usa. Isso foi depois de eu ter completado 40 anos.
Mas não animei muito. Aí minha filha – que adorou o visual – e eu viemos passear no Japão. E não consegui achar o danado do tênis. Em todo lugar, esgotado.
Agora, na rua, a loja original do tênis. Tinha o número da filha. Quando você envelhece, muitos dos seus sonhos passam para os filhos, alguns são projeções, outros não. Nesse caso, sonho mútuo. Comprei dois pares.
E ainda consegui um para a esposa. Um dia desses eu jamais imaginaria que iria calçar o mesmo tênis que filha e esposa. Mas fico feliz em saber que muitos dos nossos passos, são os mesmos.
JB Alencastro é médico e escritor.