Patrícia Garrote
Relatórios apontam que mulheres ocupam cerca de 37% das posições de liderança no Brasil, mas ainda são minoria nos níveis mais altos de decisão. Na contramão das estatísticas, mercado imobiliário na capital apresenta crescimento da participação feminina em áreas estratégicas e na transição entre gerações
A participação feminina em cargos de liderança no Brasil apresenta avanços, mas ainda enfrenta limites nos níveis mais elevados de decisão. O relatório Women in Business 2024, da Grant Thornton, indica que mulheres ocupam aproximadamente 37% das posições de liderança no país. Já levantamento divulgado pela revista Exame, com base em estudo da Diversitera, especializada em diversidade, equidade e inclusão (DEI), aponta que elas representam cerca de 35% da alta liderança, considerando gerência executiva, diretoria e C-Level.
No setor imobiliário, onde a presença feminina historicamente esteve concentrada em áreas administrativas e comerciais, incorporadoras da capital têm registrado maior participação de mulheres em cargos estratégicos e na condução de processos de sucessão familiar.
Lara Rassi
Liderança e sucessão estruturada por governança
Na FR. Incorporadora, o percentual supera a média nacional de liderança feminina apontada nas pesquisas, já que mais de 50% de mulheres compõem a estrutura administrativa e de liderança da empresa.
Atualmente, 62% do quadro administrativo – incluindo o administrativo de obras – é composto por mulheres. Considerando os níveis de diretoria, gerência e coordenação, que reúnem profissionais do administrativo e das obras, a participação feminina chega a 67% dos cargos.
A empresa também vivencia um processo de sucessão familiar estruturado. A segunda geração é formada por três irmãs, sendo duas atuantes na companhia: Lara Rassi, Diretora Executiva, e Angel Rassi, Diretora de Estratégia. Formadas em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), ambas ingressaram na empresa há oito anos com foco em governança e compliance, passando por diferentes áreas antes de assumirem funções de liderança nas frentes comercial, de marketing e estratégica.
Angel Rassi
“O processo de sucessão na FR. foi organizado com planejamento e definição clara de papéis. Nossa entrada ocorreu de forma gradual, com base em governança e conhecimento das áreas, antes da assunção formal de funções executivas. Hoje, a participação feminina nas posições estratégicas mostra um movimento construído ao longo dos anos, que vai de encontro à organização interna da empresa”, afirma Lara Rassi.
Segundo a incorporadora, o modelo de governança, iniciado em 2013, foi construído com base na Teoria dos Três Círculos, de John Davis, definindo papéis e estabelecendo um processo gradual de preparação para a sucessão. “A implementação de práticas de governança permitiu separar as dimensões família, propriedade e gestão, trazendo maior previsibilidade às decisões. A presença feminina na liderança não é circunstancial, mas resultado de preparação técnica e acompanhamento das rotinas do negócio ao longo do tempo”, destaca Angel Rassi.
O tema foi apresentado como estudo de caso na Escola de Administração de Empresas (EASP) da FGV, em São Paulo, e a atuação da segunda geração da FR. contribuiu para a criação do Comitê FGV Alumni Governança e Empresas Familiares, além da imersão “Empresa Familiar como Opção de Carreira”, voltada à graduação em Administração da instituição.
Presença na gestão e continuidade geracional
Com mais de quatro décadas de atuação no mercado imobiliário, a Consciente Construtora e Incorporadora conta com mulheres à frente de áreas e departamentos internos, em funções de coordenação e gestão. Hoje, as lideranças internas da incorporadora são majoritariamente femininas, com presença expressiva de profissionais em áreas estratégicas como engenharia, planejamento e controle de obras e orçamentos. Criada por Ilézio Inácio, engenheiro civil, a empresa também tem atualmente integrantes da segunda geração atuando ao lado do fundador.
Camila Inácio
Nesse contexto, uma das lideranças é Camila Inácio, diretora de empreendimentos e filha do presidente. Formada em Arquitetura e Urbanismo, Camila reúne mais de 18 anos de experiência em projetos residenciais verticais e mais de 20 anos de atuação no mercado imobiliário, com trajetória que inclui estudos de viabilidade, concepção, aprovação legal, desenvolvimento executivo e acompanhamento até a entrega dos empreendimentos. Nas equipes diretamente vinculadas à diretoria de empreendimentos, cerca de 80% das lideranças também são ocupadas por mulheres, o que mostra uma presença feminina crescente em funções técnicas e de gestão dentro da incorporadora.
“Minha trajetória na Consciente foi construída a partir da atuação técnica no desenvolvimento de projetos, acompanhando diferentes etapas do processo imobiliário. Hoje, ao assumir uma posição de liderança na empresa, também percebo como a presença feminina em cargos estratégicos contribui para ampliar perspectivas dentro do setor. No nosso caso, a sucessão está associada à continuidade de princípios que estruturaram a empresa, combinada à atualização de processos e à leitura das transformações do mercado imobiliário”, afirma Camila.
Fortalecendo a presença feminina no mercado
Com duas décadas de trajetória em um setor tradicionalmente masculino como a construção civil, a advogada e engenheira civil Patrícia Garrote construiu uma carreira marcada não apenas pela atuação técnica, mas pelo incentivo à presença feminina em posições estratégicas. Diretora da Dinâmica Incorporadora — empresa com 42 anos de história em Goiânia — e integrante da diretoria da Ademi-GO em 2024, ela liderou a criação do Nummi – Núcleo de Mulheres do Mercado Imobiliário. A iniciativa nasceu com 10 participantes e foi idealizada para fortalecer a atuação feminina no setor, promovendo um espaço de troca de experiências, geração de conexões e desenvolvimento de lideranças que atuam tanto nos canteiros de obras quanto em cargos executivos e na gestão de empresas.
Para Patrícia, um dos principais desafios de atuar em um ambiente historicamente dominado por homens é a conquista de credibilidade e autoridade em um contexto onde a liderança feminina ainda é minoria. “Credibilidade e autoridade não vêm com cargo, exige constância na entrega dos resultados e de posicionamento”. Mesmo após 20 anos de atuação, avalia que o preconceito persiste — ainda que de forma mais velada, principalmente nos cargos de mais alta gestão.
Esse cenário reforça, em sua visão, a importância de iniciativas que apoiem e fortaleçam mulheres em suas carreiras. “O Nummi representa a concretização desse propósito: um ambiente colaborativo, rico em networking e voltado ao crescimento profissional e pessoal. O núcleo também reconhece as múltiplas jornadas femininas, reunindo mulheres que conciliam carreira com papéis como mãe, filha e esposa, sem abrir mão da autoestima e do autocuidado”, acredita Patrícia.
Érica Caetano
Assessora de Imprensa