JB Alencastro especial para o D9 Notícias.
Olha, eu nem sei que horas são aí no Japão, mas eu precisava falar com o senhor.
Nem sei se vai se lembrar de mim, mas eu sou o marido daquela paciente que o senhor fez o parto. O que deu o nome de flor na filha. Fiz silêncio. Lembrei imediatamente. Homem bom.
Dedicado. Provavelmente uns 20 anos mais novo do que eu. Não tinha a mínima ideia do que ele iria dizer a seguir. Preocupei-me com a esposa, a filha. A família que ele construiu nesta última década. – Tá tudo bem.
Eu acordei agora, mas nem parece que dormi. É domingo e todo mundo viajou. Não sei o que fazer. Poderia ler alguma coisa. Podia ir na academia. Podia aproveitar esse tempo livre. Mas eu não tô querendo fazer nada disso.
Tô cansado. Perdi o emprego, recebi uma caixinha de papelão e a chefe do RU conversou comigo igual uma voz de moça de aeroporto, falando de embarque. Fria, né? Em vez de dizer que isso passa.
Deixei ele discorrer mais sobre o emprego. De transbordar sua raiva. E sua insatisfação. A maioria das pessoas acha que tudo passa. Que tem que pensar positivo. Não há espaço para o sofrimento. Para vivenciar um luto. Mas é necessário.
Essa positividade constante, adoece a gente. Sugeri que desligasse o celular. Aliás, desconectasse. São mil estímulos que recebemos o tempo inteiro. Coisas curtas, passageiras. Mas não são inócuas. – Imagina, eu sou PJ. Então ficou assim, eu podia trabalhar a hora que eu quisesse.
As vezes nem precisava ir lá. Resolvia tudo na hora. Não entendi. Fiquei puto.A ilusão de ser chefe de si mesmo, faz com que você trabalhe ainda mais. Ele disse que outro dia estava no jogo do Goiás e pediram para ele resolver um probleminha.
Ele ficou o primeiro tempo inteiro no celular. Perdeu o gol. A cerveja esquentou. Seus amigos estavam acostumados. Foi-se a conversa. As empresas fazem isso, tiram a responsabilidade contratual, tornando o sujeito uma empresa. E ele nem percebe. Tem que “performar”.
No sábado tentou ver um filme legal que inclusive tinha lido um comentário meu sobre ele. Caiu uma culpa danada de estar ali, disfrutando. A sociedade cobra desempenho. Por que não comprou outro curso pela internet? Por que não ouviu um podcast? Ele não percebe a violência neuronal a que está sendo exposto diariamente.
Em vez de se exercitar, ele agora está “treinando” na academia, como se fosse atleta. – Desculpe-me tô falando demais. Obrigado por me ouvir. Escutar parece que sumiu do nosso cotidiano. O tempo e o silêncio. Eu não disse nada.Poucas frases. Brasileiro gosta de barulho. Parece que somos obrigados a ter um som qualquer de fundo. Uma TV. Uma musiquinha no bar. Rir alto. Nem todos estão contentes, eu sei. Mas o compromisso do outro é necessário. Ele está só. Desacostumou. Na verdade falta presença. A da paciência, a de se mostrar inteiro para alguém.
Fico triste quando alguém diz que “está na correria”. Melhor seria… caminhando?- Sabe de uma coisa Aqui falando com o senhor, me acalmei um pouco. Pela janela de casa tô vendo um transformador que um bem-te-vi fez um ninho. Eu nunca tinha reparado.
Voz pegar umas laranjas, descascar e ficar olhando ele. Dar-se a oportunidade de não fazer nada. Só parar e nem pensar, esvaziar a mente, tornou-se artigo de luxo. Mas é muito bom.
Esse rapaz tem tudo – diriam os outros – ganha bem, família bonita e saudável, arruma outro emprego na hora, por que esse drama? Parece que todo dia tem que “bater metas”?Porque sem querer estamos sendo bombardeados por exigências que fazemos a nós mesmos e a vida passando.
O simples. Vai que você é o bem-te-vi e não percebe que onde colocou o seu ninho é exatamente onde você pode se eletrocutar, nessa sociedade do cansaço?
JB Alencastro é médico e escritor.