JB Alencastro exclusivo para o D9 Notícias.
Se você caminhar pelas ruas de Ubud, em Bali, encontrará um estranho elemento no asfalto, nas esquinas. São chinelas. Centenas. De todos formatos, tamanhos, cores e estados de conservação.
Raramente aos pares. Um mistério rapidamente solucionado.Como as vias são estreitas, as “scooters” vão trafegando rente ao passeio. Bem pertinho mesmo. E toda hora o condutor tem que parar e colocar os pés no chão. Pois o trânsito tem um volume absurdo em determinadas horas do dia.
Ninguém xinga. Ninguém grita. Ninguém fecha o motoqueiro da frente. E o mais surpreendente, os carros respeitam as motoquinhas!Porém, o fluxo não para.
Aí então se a chinela fica presa, passa por uma pedra maior, ou metade de uma calçada, ela incrivelmente por lá fica. Pois escapa com uma facilidade surpreendente. Igual palavras ao vento, grosserias injustificadas, alfinetadas desnecessárias.
Ou pura e simples fofoca. Sim, meu querido leitor. Se não nos vigiarmos, ferimos as pessoas sem nem mesmo perceber. Em tempos rápidos, em que muitos não conseguem parar para conversar, dialogar, ou então ler um texto de mais de uma página, porque é considerado “longo”, a crueza de gestos e declarações tornou-se uma constante.
Não se medem as declarações e nem mesmo o tom de voz. Andar de moto de chinela é um risco. Assim como falar sem pensar. O fluxo das conversas tomou um rumo perigoso. Falamos de nós mesmos, ou se fala dos outros.
Mas nada dizemos. Nenhuma ideia, raciocínio, conhecimento. Um vazio igual a um bueiro do final de uma ladeira, onde a enxurrada de bobagens, escorre. Soluções? Talvez um pouco mais de silêncio. De aprender a escutar, já que os ouvidos são órgão par e estão sempre abertos e a boca órgão ímpar e que pode ser fechado.
Outra medida é prestar muita atenção a quem nos dirige a palavra e vice-e-versa. O interesse real. A famosa interlocução. Olhar nos olhos e jamais interromper o momento checando um celular ou cortando a conversa.
Gente, é tão lindo aprender. Ouvir coisas novas de alguém. Voltar atrás numa opinião. Debater com justificativas. Perguntar. Pois desde quando você tem sempre as respostas prontas? E o mais importante: pedir desculpas. Reconhecer o erro e o mal ali causado intempestivamente e consertar de imediato.
Eu sei que todos nós ainda vamos achar um montão de chinelas pelos nossos caminhos. Afinal somos humanos e erramos demasiadamente. Entretanto é possível conduzir nossas relações mais devagar e sem pressa e também usar as botas da humildade com as meias da sensatez. Bom passeio pela vida, seja de chinela, de bota, na chuva ou no sol.
Mas com cuidado e carinho com o seu carona.
JB Alencastro é médico e escritor.