A médica dermatologia Margarete MB Alencastro
A luz se espalha entre a neblina e o contraste com o verde do arrozal de Penestanan é lindo. Céu está claro, ainda com uma brisa fria que sentimos ao chegar na rua de acesso ao arrozal.
É possível passar por ele de “scooter”, mas estacionamos na cafeteria e vamos à pé. Fomos convidados a participar de uma limpeza. Munidos de pinças gigantes e sacos de tela furada, saímos animados e dispostos. Calcei meu par de botas, usando uma bermuda que molha e seca facilmente e a minha inseparável pochete. Aqui estou em casa. Praticamente todo mundo usa pochete. Os canais de água são configurados de maneira incrível. O sistema de distribuição é o Subak. Milenar. A comunidade se reúne e decide o quanto de água vai sair para cada um dos habitantes e seu respectivo cultivo de arroz. Ela vem dos templos de água. Isso mesmo.
Templos onde se pratica a filosofia que delimita a vida em Ubud, Bali. O Tri Hita Karana. Traduzindo da melhor maneira que consegui, seria algo como: “as três causas do bem-estar”. A agricultura em terraços, drenando e distribuindo a água que vem das montanhas vulcânicas e dos rios de Bali, é o exemplo máximo desse modo de viver.
Equilibrando o mundo espiritual, com a sociedade humana e a Natureza. Um triângulo isósceles de valores e relações imbricadas e profundas. Mas bem simples na prática. As pequenas oferendas que vemos no chão, ainda com o incenso aceso, são parte do Parahyangan.
É a harmonia com o divino. Elas são colocadas nas portas das casas – toda casa é um templo – e distribuídas em canang sari, aqueles cestos de palha com flores e comida, geralmente arroz e biscoitos. Não pise, não apague, respeite. A sociedade é o grupo de conselheiros, agricultores e habitantes do vilarejo.
Há uma união sincera e poderosa, é o Pawogan. Aqui é o lugar onde mais vi gente sorrindo no mundo. E se ajudando mutuamente. O trânsito é um exemplo, também. Apertado, lotado, e ninguém buzina, todos dão passagem ou esperam alguém terminar uma manobra no meio da rua.
Por último o respeito as árvores, por exemplo as gigantescas Banyan, ou as figueiras. São até vestidas no seu tronco. O vulcão é uma entidade. Palemahan. E o campo de arroz um ecosistema complexo, com peixes, canais, platação de mudas, replantio, proteção as cobras.
Uma delas, dourada, fininha e veloz passou bem na frente da minha esposa. Por exemplo, vai cortar um bambú, pede permissão aos espíritos. Depois de um reunião no templo, pode sair para plantar uma árvore. Conseguimos juntar muitos sacos de lixo. Plásticos, papéis e metais. A sensação de ser útil e estar integrado é muito boa.
Mas não é só isso. O exemplo vivo da sustentação de toda uma sociedade é o que me comove. Fico pensando sobre nós… e me pergunto: qual a sua atual ligação com Deus? Com a espiritualidade? Com as pessoas que o cercam, seus vizinhos por exemplo? E com o meio-ambiente? Uma árvore que é cortada é um desrespeito a todos.
A Deus, a sociedade e a Natureza.
JB Alencastro é médico e escritor