JB Alencastro especial para o D9 Notícias
Lá estava ele, retirado do pequeno canal de água, perto do aeroporto, em pleno período reprodutivo. Diferente da cabeça aos pés, o ornitorrinco, aqui chamado de platypus, é um animal singular. Descrevê-lo torna-se uma obrigação, devido aos seus hábitos e aspecto “fofinho”. Porém rico em aprendizados.
Seu nariz é em forma de bico de pato. Nós mal cheiramos ao nosso redor, não percebemos as armadilhas as quais somos lançados. As redes de promessas, ganhos espetaculares, amores fugidios. Ele não, tem um sensor elétrico nessa região corporal. Delimita bem suas ações.
Outra coisa, seus olhos possuem uma membrana que os protegem nos mergulhos de 30 segundos onde ele coloca toda a comida para dentro das bochechas, inclusive com areia. Mas aí ele separa tudo e só engole o bom e quando está na quantidade certa. Infelizmente não vemos nada, ou não queremos perceber a turvação da sociedade atual. Enlameada pelo consumismo infindo. Engolindo sapos e pedras diariamente.
Quando acasala, a fêmea carrega dentro de si… ovos! Sim, mas ele é um mamífero. Entretanto põe ovos. No máximo dois filhotinhos nascem com dentes, no que utilizam habilmente para quebrar a casca.
Mamam em pequenos orifícios que saem direto do abdome da mamãe ornitorrinco. Desde cedo aprendem a se virar. São independentes e nadam muito bem. Quantos de nossos filhos ainda, mesmo que adultos, dependem de nós?
Suas tocas são confortáveis, do tamanho ideal. E quando o papai e a mamãe saem, a proteção é máxima. Não são casas monumentais e muito menos barracos sem saneamento básico. Imunes a chuvas, enchentes e predadores.
Se tiver a oportunidade de passar a mão em seu dorso, verá que os pelos são os mais macios que você possa ter tocado.
As costas do ornitorrinco carregam a verdade e a coragem, elas sinalizam uma capacidade de resiliência incrível. E nós, o que carregamos? Culpas? Erros? Arrependimentos? E se você colocar uma luz ultravioleta, ele brilha. Ou seja, diante da escuridão, ele se sobressai.
Uma surpresa está guardada na patas palmilhadas traseiras, um ferrão. O macho o utiliza para lutas e defesa territorial. Apesar do aspecto encantador, sabe se defender. Se enquanto com as patas da frente ele nada, com as detrás ele se direciona e ataca se necessário for. Além disso tem a cauda achatada, igual a de um castor. Muito bonita. É um leme.
Ele sabe perfeitamente para onde vai. E nós? Para onde vamos? O que queremos? Quais as nossas prioridades?
Um animal exótico, claro. Mas cada um de nós temos características próprias, únicas. O que nos falta é essa percepção do “ter” que o ornitorrinco possui e é.
De maneira diversa? Sim. Mas ele se importa com a sua família, com o que come, onde vive, se defende e ama. Riquíssimo.
Ele tem… o suficiente!
JB Alencastro e médico e escritor