A popularização das chamadas canetas emagrecedoras ampliou as possibilidades de tratamento da obesidade e colocou medicamentos como semaglutida, liraglutida e tirzepatida no centro das discussões sobre saúde e emagrecimento. Embora os benefícios desses tratamentos no controle do peso e de parâmetros metabólicos sejam amplamente estudados, uma questão começa a ganhar espaço nos consultórios: como as mudanças provocadas pelos medicamentos podem repercutir no humor, na percepção de prazer e na relação emocional com a alimentação? Em Goiás, o tema ganha peso particular: segundo o Vigitel Goiás 2025, da Secretaria de Estado da Saúde, 62,9% dos adultos estão com excesso de peso, e cerca de um em cada quatro vive com obesidade. A aprovação dos primeiros genéricos de semaglutida pela Anvisa, em agosto de 2026, deve ampliar ainda mais o acesso às canetas.
Segundo a médica psiquiatra Maria Francisca Mauro, formada em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG), doutora em Psiquiatria pela UFRJ, coautora das Diretrizes da Associação Brasileira de Psiquiatria para o Tratamento dos Transtornos Alimentares e que acumula 16 anos de experiência na área da obesidade, é importante diferenciar aquilo que já está demonstrado cientificamente das manifestações observadas durante o acompanhamento individual dos pacientes. A médica alerta que, até o momento, as grandes análises de segurança não demonstraram aumento consistente do risco de depressão associado aos medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1.
Entretanto, os resultados não significam que todas as possíveis repercussões emocionais estejam esclarecidas, especialmente entre pessoas com transtornos psiquiátricos preexistentes, cuja participação pode ser limitada em determinados ensaios clínicos. Uma metanálise publicada em 2025 na revista JAMA Psychiatry (Glucagon-like peptide 1 receptor agonists and mental health: a systematic review and meta-analysis), que reuniu 80 ensaios clínicos e mais de 107 mil participantes, não encontrou aumento de eventos psiquiátricos graves entre usuários desses medicamentos em comparação ao placebo.
Na prática, a especialista relata perceber respostas distintas entre os usuários de GLP-1. “Observo que alguns pacientes, de acordo com o medicamento, têm uma melhora do quadro de depressão. Outros, especialmente nos primeiros dias após a aplicação da tirzepatida, relatam mais agitação e euforia, mas isso tende a melhorar ao longo dos dias”, afirma. Ela ressalta que essas experiências clínicas precisam ser interpretadas individualmente e não permitem, isoladamente, estabelecer uma relação de causa e efeito entre o medicamento e as alterações de humor. A psiquiatra lembra ainda que os medicamentos não são tratamento para depressão e que qualquer mudança de humor deve ser comunicada ao médico que acompanha o tratamento.
Quando a comida deixa de ocupar o mesmo lugar emocional
Parte dessa discussão envolve a atuação dos medicamentos sobre mecanismos cerebrais relacionados à saciedade, à motivação e à recompensa. Além de reduzir o apetite e favorecer o controle da ingestão alimentar, os tratamentos podem modificar a maneira como algumas pessoas respondem aos estímulos associados à comida. Essa mudança pode representar um benefício importante, sobretudo para pacientes que convivem com pensamentos persistentes sobre alimentação ou dificuldade de controlar a quantidade ingerida.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 no Journal of Affective Disorders (A systematic review in effects of GLP-1 mono-agonists on functional connectivity), que reuniu oito estudos de neuroimagem, mostrou que esses medicamentos modificam a comunicação entre regiões do cérebro ligadas à fome, à recompensa e às emoções, como o hipotálamo, a amígdala e o córtex orbitofrontal. São circuitos envolvidos também na capacidade de sentir prazer. Os autores ressaltam, porém, que os estudos ainda são pequenos e os resultados, heterogêneos.
No entando, a alimentação também desempenha funções emocionais, afetivas e sociais. Para algumas pessoas, comer está associado à celebração, ao alívio da tristeza, à convivência familiar ou à busca de conforto diante de situações difíceis. Quando essa relação se modifica de maneira significativa, podem surgir sentimentos de estranhamento e insatisfação que merecem ser compreendidos durante o tratamento.
“Algumas pessoas tratam a comida como um refúgio emocional. Estou alegre, vou comer; estou triste, vou comer. A comida como uma mediação da forma de ser, da forma de estar”, explica Maria Francisca. Segundo a psiquiatra, quando o paciente deixa de encontrar na alimentação uma fonte habitual de prazer ou conforto, pode enfrentar dificuldades para se adaptar à nova experiência. Uma revisão publicada em 2025 na revista Nutrients (Beyond weight loss: GLP-1 usage and appetite regulation in the context of eating disorders and psychosocial processes) ajuda a entender esse processo. O comer emocional diminui nos primeiros meses de uso das canetas, mas, em um dos estudos analisados, voltou ao nível inicial após 12 meses. Para os autores, o medicamento reduz o impulso de comer, mas não trata a dificuldade de lidar com as emoções que estava por trás dele.
Uma das situações identificadas pela médica é a alteração, por iniciativa própria, dos intervalos entre as aplicações. Há pacientes que adiam a dose prevista para o fim da semana na expectativa de recuperar parte do apetite ou do prazer associado às refeições do final de semana. Embora esse comportamento não possa ser generalizado, ele revela como o tratamento pode envolver questões que ultrapassam a resposta metabólica. Segundo a médica, mudar o intervalo por conta própria pode desorganizar o tratamento e aumentar efeitos colaterais quando a dose é retomada.
A especialista chama a atenção para a necessidade de compreender o significado dessas mudanças. A redução do interesse pela comida pode fazer parte da resposta esperada ao medicamento, mas o sofrimento emocional, a perda persistente de prazer em outras atividades e os prejuízos na rotina exigem uma avaliação mais ampla. Por isso, alterações no esquema de aplicação não devem ser feitas sem orientação do profissional responsável.
Atenção aos transtornos alimentares
Pesquisadora da relação entre obesidade e comportamento alimentar, Maria Francisca chama atenção para outro grupo que exige cuidado: pessoas com histórico de compulsão alimentar, bulimia ou restrição alimentar intensa. Para quem tem obesidade, a redução do apetite costuma trazer alívio. Mas, em alguns casos, o alívio pode dar lugar ao medo de comer ou de recuperar qualquer quilo. Um consenso internacional de especialistas publicado em 2026 na revista World Psychiatry (Consensus-based recommendations for GLP-1 receptor agonists in the context of eating disorders: a modified Delphi study) recomenda investigar o comportamento alimentar antes de iniciar o tratamento. “Menos fome não significa necessariamente uma relação mais saudável com a comida”, afirma Maria Francisca.
A revisão da Nutrients alerta para um risco pouco percebido: a restrição alimentar pode ser confundida com boa adesão ao tratamento, sobretudo quando o peso está caindo. Entre os sinais que exigem atenção, os autores citam perda de peso muito rápida, tontura ou desmaio, restrição cada vez maior e uso de laxantes ou vômitos. As redes sociais também pesam: uma análise de 100 vídeos do TikTok com a hashtag #Ozempic, que somavam cerca de 70 milhões de visualizações, mostrou que a maioria era de relatos pessoais com foco na perda de peso. Para os pesquisadores, esse tipo de conteúdo pode estimular o uso sem indicação, especialmente entre adolescentes.
Acompanhamento precisa considerar a saúde emocional
Para Maria Francisca, o acompanhamento de pessoas em tratamento da obesidade deve contemplar também a percepção que elas têm sobre a própria qualidade de vida. Mudanças importantes no comportamento alimentar, isolamento social, apatia, tristeza persistente ou perda de interesse por atividades anteriormente prazerosas são aspectos que precisam ser investigados, independentemente de sua relação com o medicamento.
A atenção deve ser compartilhada entre diferentes profissionais de saúde. Endocrinologistas, psiquiatras e psicólogos podem contribuir para identificar se determinadas manifestações estão associadas à adaptação ao tratamento, a condições emocionais preexistentes ou a outros fatores que exigem investigação. “Além das taxas, dos exames bioquímicos, da balança, do peso, é importante saber como esse paciente está se sentindo. Ele se sente bem? Se sente ele próprio?”, questiona a psiquiatra, ao destacar a relevância de incorporar a avaliação emocional às consultas.
A observação também se estende aos psicólogos que acompanham pacientes em uso desses medicamentos. Uma perda de peso muito acelerada, o afastamento de encontros familiares ou a redução do interesse por experiências que antes faziam parte da rotina podem fornecer informações relevantes sobre a maneira como o indivíduo está vivenciando o tratamento.
Esses sinais não indicam necessariamente um efeito adverso psiquiátrico causado pelas canetas antiobesidade. Contudo, podem justificar uma reavaliação clínica, inclusive da dose, da estratégia terapêutica e da necessidade de acompanhamento multiprofissional.
Ao ampliar a discussão sobre os efeitos do tratamento, Maria Francisca Mauro defende uma abordagem que considere a obesidade em sua complexidade biológica, psicológica e social. Afinal, a resposta ao medicamento não pode ser avaliada exclusivamente pelos quilos perdidos ou pelos resultados laboratoriais. O objetivo, segundo a médica, é compreender “o que o paciente precisa para ter os benefícios do medicamento e manter uma vida que ele sinta inteira”.
Sobre a especialista Maria Francisca Mauro é médica psiquiatra, formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), mestre e doutora em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa a relação entre saúde mental, obesidade, cirurgia bariátrica e transtornos alimentares, é membro da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) e coautora das Diretrizes da ABP para o Tratamento dos Transtornos Alimentares (2026). Atende em Goiânia e no Rio de Janeiro. CRM-GO 11613 | CRM-RJ 52.82311-2 | RQE 18264
Atendimento em Goiânia: The Prime Tamandaré Office, Rua 5, 691, sala 1102, Setor Oeste. Agendamento: (62) 98485-4757. Instagram: @mariafranciscamauro.
Sugestão de pauta: a médica está disponível para atender entrevistas relacionadas ao tema.
Goiânia, novembro de 2026
Boomerang Comunicação | Assessoria de imprensa