JB Alencastro especial para o D9 Notícias.
Respiro profundamente. O ar está bom. Falta um dia para viajar para o outro lado do mundo. Tudo pronto, arrumado. Vou correr mais de 10 km. Para isso, tenho que ampliar o meu trajeto.
Moro no Setor Oeste, bairro antigo de Goiânia. Bem arborizado, lindo. Saio em direção a uma escola militar.
Aquecendo no primeiro quilômetro, me deparo com uma árvore arrancada no toco. Suas raízes expostas. Quanto oxigênio ela já produziu? Quantas vezes ofereceu sombra aos transeuntes cansados e alunos suados? Dá-me uma certa angústia e curiosidade, o que ela tinha para ser trucidada deste modo?
Retorno pelo enorme supermercado e vejo vários troncos cortados na base. Na frente do prédio Di Cavalcante tem uma árvore totalmente assimétrica, metade foi embora. Minha velocidade aumenta, mas a percepção de que algo está errado, também.
A volta pela Alameda das Rosas enche-me de esperanças. Passo na frente do prédio do meu falecido amigo, Dr Camilo. Essa é a volta Gran Camilo. Homenagem à ele.
A brisa aumenta e chove um pouco. As enxurradas têm sido mais violentas nesses dias de janeiro e fevereiro. Faltam raízes para drenar. Viro na Rua 3, calçada bem larga no lado direito. O dia começando. Vento.
São alguns quilômetros até passar na frente do Colégio e a igreja do Atheneu, hora da primeira hidratação. Caminho enquanto bebo água. Como passo pouco tempo por aqui, vejo que o cenário está mudando. Está mais liso. O piso liso. Escorrega para quem corre. E menos árvores. Ficou notório, hoje.
Agora, uma surpresa desagradável. Até dentro do Bosque dos Buritis tem poda selvagem. O que está ocorrendo? Na semana passada vi uma ave incomum, um udú coroado.
Apesar de ser discreto, acredito que ficou sem ninho. Não tem medo de mim. Lá está ele novamente. Aqui o terreno irregular exige mais atenção na passada. Diminuo o ritmo. O pio dele é igual ao de coruja. Mas está de dia, o que é pior.
Aí entro na ciclovia da Av. Assis Chateaubriant. Passada largas. Uma amiga de infância me cumprimenta. Chove. Estou pleno e feliz pela corrida, mas triste com a devastação.
Maioria das fachadas das lojas não tem árvores a sua frente. Não é coincidência. Aumento a velocidade e como um pedaço de rapadura.
Corredor raiz.
Desço o pequeno trecho final da Av. Portugal, ponto de muita água descendo. E olha a Camila, filha do Camilo! Corro numa rua que passa aos fundos da Clínica de Repouso de Goiânia. Mando mentalmente um abraço para o Frota. Ele diria que o mundo está doente. Acelero. Mais água.
Tem um pinheiro enorme ao lado da casa onde morava a Lia. Grito bem alto: – Bom dia, Josias! Bom dia, Dona Neide! Ele é o irmão e ela a mãe da minha amiga do Pré-Médico. Agora falta pouco para completar o percurso. Estou chegando na Av. Anhanguera.
Conheço todas as árvores daí e também as aves. Temo por todos. Sem árvore, não tem ave. Sem árvore não tem drenagem, oxigênio, sombra e beleza.
Daqui um ano eu volto. Será que verei um replantio? Uma justificativa para essa devastação? Pois enquanto minha cidade está correndo para adoecer, eu corro para saudar o amanhecer e o bem-viver.
JB Alencastro é médio e escritor.