JB Alencastro especial para o D9 Notícias.
Resistir a um bom café é para poucos e não ingerir, mais ainda. Mas deixemos de lado essas exceções e vamos para os amantes dessa bebida mágica e deliciosa.
Lá no começo de tudo, nas terras altas da Etiópia, as cabras que comiam as sementes dessa planta eram mais ativas, espertas e saltitantes. Um pastor chamado Kaldi observou isso e ingeriu essas sementes vermelhas. Deu muita energia. Mas um abade testemunhou a heresia e pôs fogo no produto.
O que resultou em um dos aromas mais amados do mundo.Então a origem do café que por sua difusão pelos árabes, intitulou-se de arábico. O outro, mas ao sul do continente africano, rodeando as terras baixas e florestais do Lago Vitória, produziu a variedade robusta. Com mais cafeína, amargo e poderoso. Robusta aguenta tudo, até desaforo.
Podendo ter uma mistura de grãos, impurezas e galhos secos. É para os fortes. Aí, um bichinho bonito, noturno, habitante do Sudoeste Asiático, num dia desses, saiu do seu habitat natural nas palmeiras, aqui em Bali e ingeriu os grãos de café arábico.
A civeta. Mas ele é um “gourmet”. Só come grãos perfeitos e seu sistema digestivo produzo famoso “kopi luwak”. Café mais caro do mundo. Muita gente não confessa, mas acaba parando em Ubud, só para tomar café e fazer amizade com esse animal incrível.
Pois bem. Para tomar café, precisamos de pão. Alguns dizem que é só uma mistura de água e farinha. Quanta ilusão! Pão é alimento dos escolhidos. Pode ser o chamado francês, no Brasil. Pode ser o “baguette”, aquele comprido que você compra e põe debaixo do braço.
O “arrabiata”, cheio de furos e aeração. Ou então o mundialmente famoso e o mais comido de todos, o sírio, conhecido por aí como “pita”. É multi-uso. Serve para tudo. Da manhã até a noite. Gostoso demais.E antes que alguém me cobre sobre o “croissant”, infelizmente tenho que confessar que demorei a descobrir que ele é de origem austríaca, e não francesa. Maria Antonieta que o trouxe de Viena e os franceses acrescentaram aquela massa folhada e manteiga.
O nome dele era “kipferl”, muito menos charmoso, não? Que diga o império otomano e sua semi-lua que foram o formato inspirador. Para enfeitar a mão que serve, produz, amassa, colhe, torra, mistura e também bebe café come pão. A pulseira. Elemento protetor de primeira linha, das mais antigas civilizações. Tanto utilizada por homens como mulheres.
Servia também como identificação de suas origens, como status social e muito mais. Um pulso firme geralmente está adornado por uma pulseira.Cada uma delas externa uma mensagem. Sutil. Sentimentos, posicionamentos, predileções de cores. Uma paleta pessoal. Única e indivisível. Hoje bem cedo, observando minha esposa fazendo o café e usando a inseparável cafeteira sextavada italiana, fiquei encantado. Como ela estava linda, cortando o pão e servindo a todos. Suas pulserinhas – são dezesseis, ao todo – ornavam seus braços longos, finos e fortes. Comi, bebi, e apertei suas mãos de dedos belíssimos.
E logo percebi que ela é minha bebida que ativa, a comida que alimenta e a pulseira que enfeita e une. Uma mulher única, com cheiro e textura inimagináveis, colorida e envolvente como ninguém.
JB Alencastro é médico e escritor.