JB Alencastro direto do Japão especial para o D9 Notícias.
Morando em Kyoto, o chá-verde, popularmente conhecido com matcha, é onipresente.
Ele está nas vendinhas, nos supermercados, nas lojas, nas casas de chá e plantado em qualquer espaço vazio das ruas da periferia. Ele o cerca e você é cercado por ele.
Não há como escapar.
A curiosidade é imensa em participar de uma cerimônia como essa, 茶道, o chadō. Mas são tantas as casas que nem sabemos como escolher.
Apesar da esposa ser uma “cafezeira” inconteste, desde o ano passado, mais exatamente na Tailândia, ela vem ingerindo chá.
Na China, em Kunming, tornou-se um hábito. Também faço uso, mas em menor frequência e quantidade do que ela.
Então a escolha foi inconscientemente dela. O perfil. Teria que ser algo mais intimista, menor, cuidadoso. E preferencialmente, usando kimono. Suas duas amigas, aqui ainda presentes devido ao bloqueio do espaço aéreo de Doha, adoraram a ideia.
Pesquisei. Encontrei uma casa do lado do icônico Kinkaku-ji, o Templo do Pavilhão Dourado, de acordo com o que imaginávamos.
Lá chegando, mais cedo, fomos bem recebidos. Permanecer em silêncio foi um pouco difícil, enquanto aguardávamos a nossa vez.
O ambiente aconchegante, quentinho. O biombo estava lá, as portas de madeira trançada, o tatame, o recipiente de chá em um buraco no solo, alguns apetrechos ao lado, o belo arranjo de flores em um canto.
Tudo isso visto de uma primeira olhadela. Pois fomos convidados a subir por uma escada bem íngreme, para trocarmos de roupa. Primeiro as moças, depois eu.
Quando a primeira delas desceu, com cuidado, e vi o traje, imediatamente percebi que seria um evento inesquecível.
O que eles chamam de 一期一会 , ichi-go ichi-e, uma vez, um encontro. Ou seja, mesmo que nós quatro estejamos novamente juntos, tomando chá, nunca será igual.
Cada momento é único.
As três muito bonitas, com temas e cores diferentes em seus trajes. Foi então a minha vez, o肌襦袢 hadujaban que é colocado primeiro é uma camisa bem fina amarrada firmemente na cintura, depois vem o kimono e o obi, a faixa. Desci elegante.
As explicações foram breves, mas profundas. Desde a origem chinesa do chá, passando pelos dois grandes monges que trouxeram as plantas e o hábito de beber.
Sentados, agradecemos o chá a quem está a direita, ofertamos para quem está a esquerda e novamente agradecemos ao anfitrião. Rodamos a xícara do sentido horário e bebemos a infusão.
Lógico que isto é o resumo do resumo.
Antes comemos três doces maravilhosos, pode ser com a mão ou com um palitinho para espetar. Cada experiência é um sabor.
Desaceleramos. E ao vê-la usando o lenço, depois a espátula e por fim o instrumento que parece um pincel de barba fenestrado, para misturar o pó verde com a água quente, a atmosfera mudou.
Mesmo cansados de ficar na posição seiza (joelhos dobrados apoiados no calcanhar) fomos envolvidos pelo ambiente.
Repetimos tudo, dentro da nossa inexperiência, mas cheios de interesse, o que cativou nossa anfitriã.
E na verdade, somente ao final consegui vislumbrar a real razão da cerimônia nas quatro palavras-chave de Sen no Rikyu, o monge japonês: harmonia de nós quatro brasileiros com uma tradicional mestra japonesa, respeito pelo ambiente e seu significado, pureza dos gestos e simplicidade do local e utensílios e a tranquilidade em estar explanando mais uma vez algo que é a vida dela e que naquele momento tornou-se nosso também.
JB Alencastro é médico e escritor.