JB Alencastro especial para o D9 Notícias.
Ela estava parada com a tela a sua frente no Jardim Botânico de Cairns. Olhava para o chão.
Umas sementes azuis. Identifiquei o desenho. Era um casuar. Ave comum nessa região. A artista abaixava com facilidade e levantava ocasionalmente em uma perna só. Carregou várias vezes o seu material por entre as folhas e raízes. Dispus-me a ajudá-la.
Apenas sorriu e agradeceu. Era pesado. Disse-me que depois iria caminhando até a piscina pública, pela Esplanade e que fazia isso praticamente todos os dias. Calculei a distância, ida e volta uns 8km. Alguns dias ela nadava, outros não.
Sempre gostou do mar, mas onde tem crocodilo de água salgada, não é bom arriscar. Minha curiosidade aumentou sobre quem era e sua provável idade. Mas nada peguntei.
A conversa em si estava boa. Contou-me sobre suas telas antigas e recentes. Sobre os bichos da floresta, das plantas e dos presentes do mar.
Esticou-se toda e explicou-me que é necessário fazer isso porque a posição em pé e depois sentada, estraga a coluna. Dissertou sobre raízes, bulbos e lírios. Falou de uma tela sua com esse tema e que estava aprendendo francês porque era encantada com as ninféias de Monet.
E que havia comprado uns gibis para estudar. Nos quadrados é do jeito que escreve e nos balões é do jeito que fala, disse categoricamente.
Depois falou numa língua que nunca escutei e sorriu. Dentes muito brancos. Nessa hora disse-me que nascera em 1966. Estava feliz com essa idade pois seu pai morrera com 30 anos e sua mãe com 40.
Perguntou-me de onde eu era, e opinou que português é uma língua difícil. Repetiu a palavra “obrigado” várias vezes. Resolveu fazer um diário depois dos 50 anos.
E adorava ficar decorando o nome científico de tudo que pinta e desenha. Sempre faz churrasco com as amigas no fim-de-semana.
Nas margens da lagoa. Perto da galeria onde expõe seus quadros. De repente uma algazarra. São quatro crianças pequenas vindo correndo em nossa direção. Ela é a vovó.
Teve filhos muito cedo. Um casal veio em nossa direção.
Bastou ela olhar para a turma que todas se calaram. Sentaram e ela foi explicando sobre o jardim, as plantas dali e como aquelas frutinhas faziam um sucesso danado com a ave corredora de capacete, o casuar.
A reverência que o casal fez quando se aproximou dela foi muito bonita e silenciosa. Uma energia tranquila naquele momento e eu ali. Caladinho. Eu que sempre falo bastante, aproveitei para aprender um pouco mais.
É muito bom isso. Observar para poder integrar. Chegou a orientadora do passeio guiado e cumprimentou-a com carinho e respeito.
Sua força física de caminhar, carregar pesos, abaixar e levantar, nadar e alongar é impressionante.
Assim como o sorriso que emite enquanto se exercita. Seu interesse constante pela Natureza, por línguas, uma memória testada dia-a-dia é uma força intelectual imensa.
Nem falo de suas telas que depois pude verificar que são lindas. E por fim a força moral, cada palavra sua é ponderada.
A paixão inequívoca dos netos e – não sei se era a filha ou o filho, pois ambos a trataram como mãe – a família, e somada a minha admiração.
Além da funcionária do Jardim Botânico. Uma inspiração enorme numa manhã amena, com as três maiores forças do ser humano naquela mulher singular: a física, a intelectual e a moral.
JB Alencastro é médico e escritor