JB Alencastro especial para o D9 Notícias
Recebi um convite inusitado. Ser o organizador da festa de despedida de solteiro do Furlanetto. Uma grande aventura. A proposta era reta e direta, como ele. “- Quero conhecer a Mongólia.” Topei e fiz apenas duas exigências: vamos também escalar uma montanha na Rússia e levar o meu filho.
O Monte Elbrus, considerada a maior montanha da Europa, foi conquistado por cinco de nós, antes de chegarmos ao destino principal. O que já é outra história. Mas somente o trio prosseguiu para a quase desconhecida capital Ulaanbaathar, da Mongólia. Lugar alto, seco e frio. Cenário cinematográfico. Alugamos um 4×4 com a intérprete e o guia-motorista-cozinheiro.
Iríamos mais adiante, para a região central dos lagos e depois a travessia pelas bordas do gelado deserto de Gobi. A estrada asfaltada tinha exatos 90km de extensão. Depois uma pavimentação precária e então: o nada. E não é que o carro quebrou logo após passados uns 20km percorridos na vastidão infinita? Ainda pelo rádio, o motorista pediu um novo veículo. Mas o que mais chamou atenção foi ele reclamar de que não tinha nenhum camelo por perto. Mais tarde descobri o porquê.
Próximos a nós havia uma yurta, grande tenda redonda e móvel, onde vivem os nômades mongóis. Pegamos os cavalos e fomos para o conforto e segurança contra o frio e os lobos. Lá fora um gigantesco mastim tibetano vigiava a paisagem e tudo o mais. Muito bom todos saberem montar e os cavalos terem uma mobilidade e força incríveis. Eles carregam cargas também.
A noite de vento e uivos foi acalentada com airag. O estranho leite de égua fermentado. Meu filho bebeu contrariado, mas depois gostou. Furlanetto “botou pra dentro” e vibrou. E eu, apenas degustei. Mas estava com tanta fome e cansaço que até fiquei tonto de tanto ingerir essa iguaria. Logo estaríamos com o carro novo, que era um jipe russo pré-histórico, em direção ao deserto e ao lago.
Camelos têm duas corcovas, são muito peludos e mansinhos. Não são ariscos como os dromedários. Andam de lado. Ou seja, primeiro o lado direito e depois o esquerdo. Suas patas são imensas e os cílios também. Vistos de perto e convivendo com eles, chega-se a conclusão de que é um animal encantador.
O problema é que eles não falam português e nem inglês. Ou seja, os comandos são em mongol. Por incrível que pareça, demoramos a perceber isso. Para levantar é “- Bos!” , muito parecido com “chefe” em inglês. Caminhando em frente é “Uragsh!” . Falou com um, falou com todos. A cáfila obedece em uníssono e vai junto. O maior problema foi que o João Mário (o filho) adorou a palavra “Züün!” que significa ir para a esquerda e o danado do Humberto (o quase-filho Furlanetto) gostou de “Baruun!” que é ir para a direita. Aí ficou essa conversa de “zum-barum” e a camelada andando em zigue-e-zague por culpa da camelagem dos dois.
O lago era lindo e logo acostumamos com a logística de deslocamento. Perdemos o jipe no atoleiro. Necessário mais cavalos e camelos. Noites frias e estreladas. Os camelos são carinhosos e solícitos. Tenho saudades. Outro dia encontrei com o Furlanetto e corremos juntos e ele gritou de repente: – Zogs! Que significa parar. Já cansado eu respondi: – Амар бай! Que seria mais ou menos “fica frio, fica calmo, tranquilo”.
Quem dera as nossas vidas fossem comandos em mongol, como levantar, ir em frente, parar e refletir. E talvez seja isso mesmo e os camelos bactrianos é que estão certos e felizes.
JB Alencastro, médico e escritor.