Renato Gomes
Durante muitos anos, quando se falava em qualidade na saúde, o debate quase sempre se concentrava no ato assistencial.
O olhar estava voltado para o médico, o hospital, a tecnologia, os equipamentos. Tudo isso é, sem dúvida, essencial. Mas, após mais de 25 anos de atuação em gestão, consultoria e educação em saúde, cheguei a uma convicção cada vez mais clara: os resultados clínicos são consequência direta da qualidade da gestão.Hospitais organizados funcionam melhor.
Equipes bem lideradas erram menos. Processos estruturados salvam vidas. Pode soar simples, mas essa afirmação carrega uma verdade poderosa.
Não existe excelência assistencial sustentada sem excelência em gestão.Na prática, vejo diariamente instituições com profissionais altamente capacitados que, ainda assim, enfrentam dificuldades causadas por falhas de planejamento, ausência de governança, desorganização de fluxos e decisões tomadas sem dados confiáveis.
O reflexo aparece rapidamente em filas, desperdícios, sobrecarga das equipes, aumento de custos e, principalmente, na experiência do paciente.
Quando a gestão é eficiente, o cenário muda.
Protocolos passam a ser seguidos, os recursos são melhor alocados, os indicadores são monitorados e os problemas corrigidos com mais rapidez.
A segurança do paciente aumenta, os custos se tornam mais controláveis e o atendimento ganha mais qualidade, humanidade e capacidade de resolução.
Outro ponto central é a governança.
A área da saúde exige transparência, responsabilidade e ética.
Modelos modernos de gestão, aliados a práticas de compliance e de gestão de riscos, não representam burocracia. São instrumentos de proteção institucional e de melhoria contínua.
Eles garantem sustentabilidade financeira, fortalecem a confiança da sociedade e criam bases sólidas para decisões estratégicas.
Também não é possível falar em qualidade sem falar de pessoas.
A saúde é, acima de tudo, gente cuidando de gente.
Lideranças despreparadas, modelos de contratação mal estruturados e a ausência de políticas de desenvolvimento profissional impactam diretamente os resultados assistenciais.
Por outro lado, instituições que investem em gestão de pessoas constroem equipes mais engajadas, reduzem a rotatividade e melhoram seus indicadores de desempenho.
Vivemos ainda um momento em que inovação e saúde digital deixaram de ser tendência para se tornarem uma realidade obrigatória.
Sistemas de gestão, análise de dados, inteligência artificial e soluções digitais ampliam a capacidade dos gestores de tomar decisões mais rápidas e eficazes. Mas tecnologia sem gestão é apenas custo.
É a estratégia que transforma dados em qualidade.
Acredito, também, que o avanço da saúde no Brasil passa pela aproximação entre os setores público e privado.
Há experiências bem-sucedidas em ambos os lados que precisam ser compartilhadas, adaptadas e ampliadas.
Eficiência, governança e foco em resultados não pertencem a um único setor.
São princípios universais de boa gestão.
Por tudo isso, afirmo com convicção que a qualidade da saúde começa na gestão.
É nela que se define se os recursos serão bem utilizados, se as equipes estarão preparadas, se os processos serão seguros e se o paciente será realmente colocado no centro do cuidado. Investir em gestão não é um custo.
É a forma mais inteligente de elevar o padrão da saúde no país.
É justamente essa reflexão que nos move no 6º Simpósio Nacional de Gestão Pública e Privada, ao provocar líderes, gestores e profissionais a compreender que transformar a saúde passa, inevitavelmente, por transformar a forma de gerir.
Renato Gomes do Espírito Santo é diretor executivo do Instituto RG e presidente do CBEXS Chapter Goiás