A determinação do ministro Alexandre de Moraes, de investir contra oito empresários bolsonaristas de porte, parece estranha: por mais golpistas que sejam suas opiniões, eram divulgadas entre amigos, num app particular, de conversa, sem sinal de articulações externas, exprimindo pensamentos, não ações. É uma conversa entre amigos, só que por escrito. Por que uma reação tão dura do ministro? Será legal invadir uma conversa particular e utilizar o aparato de força à disposição da Justiça contra quem apenas dá sua opinião? A este colunista parece censura. Mas este colunista nada entende de Direito.
Há, apesar das aparências, duas coisas pouco habituais. A primeira é que a conversa entre os empresários não era assim tão privada, tanto que vazou para um dos colunistas mais importantes do país, Guilherme Amado, do Metrópoles, de Brasília, que alcança ampla (e merecida) repercussão. Quando Amado divulgou alguns posts, mais de 50 empresários deixaram o grupo. Um empresário dos que sobraram defendia o uso da mentira em favor de Bolsonaro, pois estava em guerra contra o eventual retorno de Lula e PT.
A segunda é que Alexandre de Moraes não ordenaria busca e apreensão sem ouvir um amigo ponderadíssimo, o ex-presidente Michel Temer. Não é difícil supor que, tendo as mensagens vazado, Moraes aproveitou a chance para verificar se os oito empresários não estão por trás do financiamento das fake news, ou até articulando ativistas dispostos a tudo para dar o golpe.
A lista dos atingidos
Os empresários submetidos à busca e apreensão são José Isaac Peres, da rede Multiplan de shopping centers; André Tissot, grupo Sierra; Luciano Hang, Havan; Meyer Nigri, Tecnisa; Marco Aurélio “Morongo” Raimundo, Mormaii; Ivan Wrobel, Construtora W3; José Koury, Barra World Shopping; e Afrânio Barreira, do Grupo Coco Bambu. Todos têm condições para reagir à medida e, caso a comprovem ilegal, de criar problemas para Moraes.
Vai negar
Se o caro leitor confia 100% em Bolsonaro, deve pular para a nota abaixo, em vez de se irritar. Mas é verdade: no início de semana, Bolsonaro contratou um marqueteiro, cujo nome ainda não foi possível apurar, numa tentativa de buscar as intenções de voto que o separam de Lula. Se o presidente tomar conhecimento desta nota, irá desmenti-la. O marqueteiro era reivindicação antiga de Flávio, o filho mais velho de Bolsonaro e o mais enfronhado na política.
A ideia até agora era vetada por Carlos, o filho 02, que confia mais em suas ideias de desconstrução da imagem dos adversários. Não foi possível apurar se Carluxo concordou com a contratação (desde que não interfira no seu trabalho) ou se foi vencido. Se foi vencido, logo reclamará em público.
Falou e disse 1
O presidente Bolsonaro já disse publicamente, em 25 de abril de 2019, que o Brasil “não poderia ser um país do mundo gay, de turismo gay, pois temos famílias”. Complementou: “Quem quiser vir ao Brasil fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”.
Falou e disse 2
Lula preferiu um comício: “Mão de homem não foi feita para bater em mulher. Quer bater em mulher, vai bater em outro lugar, mas não dentro de sua casa ou no Brasil, porque nós não podemos aceitar mais isso”.
Falava e dizia
Lembra de Sebá, codinome Pierre, último exilado ainda na Europa depois da anistia? Sebá, de Paris, telefonava para sua mulher Madalena, que lhe contava as últimas novidades – inclusive a inflação galopante, que a impedia de comprar a passagem de volta. Imagine Sebá, hoje, sendo informado de que Alckmin é vice na chapa de Lula e circula com bonezinho do MST. Ou de que o responsável pela Infraestrutura no Governo Dilma, Tarcísio de Freitas, é o candidato do presidente Bolsonaro a governador de São Paulo. Nem Tarcísio deve ter acreditado, mas pegou um bom mapa e descobriu que no Brasil há um Estado com esse nome.
Temos também um caso bom no Paraná. Lá, o ex-juiz Sérgio Moro, que foi ministro de Bolsonaro e saiu atirando, que é tratado como traidor pelo presidente, tenta voltar ao velho e confortável abrigo: diz que ele e Bolsonaro “têm o mesmo adversário”.
Como diria Sebá, “Qu’est-ce que c’est, Madalena? Não quer que eu volte, arrumou outro? Seja franca, amancebou-se?”
Tela quente
Nesta semana, entrevistas no Jornal Nacional com os candidatos à Presidência. Na quinta, Lula; na sexta, Simone. No domingo, debate, o primeiro da campanha, organizado por UOL, Folha de S.Paulo, Rede Cultura e Rede Bandeirantes, às nove da noite. Pela primeira vez, se ninguém fugir da raia, Bolsonaro e Lula se defrontarão. Nas pesquisas do início da semana, da FSB/BTG, Lula lidera com 45% – o mesmo índice anterior. Bolsonaro subiu 2 pontos, ainda na margem de erro, e tem 36. Ciro caiu de 8 para 6%.
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