JB Alencastro exclusivo para o Portal D9 Notícias.
Saída de casa é numa ruazinha estreita, cheia de quintais e jardins floridos. Passa a esquina, está o horti-fruti em que invariavelmente, nós dois – com 62 anos- somos os mais novos a frequentar. Cumprimento o guarda que todos os dias auxilia no trânsito dos pedestres e das bicicletas. Ele se curva levemente em retribuição.
Atravesso os trilhos da estação Kutsukawa, no mesmo instante em que a cancela se levanta. O carro do outro lado espera a minha passagem. É uma descida.
Minha velocidade aumenta naturalmente. Um santuário xintoísta a minha direita, e logo depois dois cafés e uma padaria muito elegante.
O dia está lindo. Temperatura agradável de 15C, muito diferente dos habituais 9C ou menos em que experimentamos mais de um mês correndo por aqui.
A maioria das cidade japonesas não tem uma praça central. Uma sede do governo, uma igreja, um Banco do Brasil e um campinho de futebol. Nada disso. Elas são lineares e contam com todos os recursos possíveis em cada bairro.
Vou em direção a pista de ciclismo e corrida que circunda o Rio Kizu.
Há dois meses cumpro o mesmo percurso, em horários bem semelhantes. Por isso conheço e sou saudado pelos personagens que integram a paisagem. O jovem atleta já não está mais usando calça e sim uma bermuda.
Levanto minha mão espalmada e elas se tocam como incentivo que todo corredor entende e vibra. Aumento a cadência da passada, já vou ultrapassar a única avenida de duas pistas do setor, a Joyo Hirakawa.
Como o sinal está fechado, subo mais um pouco até ele abrir. Aqui, transeuntes e veículos jamais furam o farol.
Leve inclinação no terreno. Uma horta bem cuidada do lado direito, e logo depois uma oficina de carros, onde somente uma pessoa cuida. Sempre com seu indefectível pano amarrado a cabeça. Ele me saúda com fervor e interpreto como um incentivo.
Velocidade aumentada para enfrentar a rampa que dá acesso a pista. Se essas subidas tem menos de 200 metros eu sempre as ataco com rapidez. Se são mais longas, diminuo a passada e inclino bem meu corpo para frente.
Aqui, no caso, vislumbro os corvos em bando, e logo passa um grupo de ciclistas colados na roda uns do outros. A vezes esqueço que a mão é inglesa no Japão, e corro na contra-mão. Creio que sou perdoado.
Principalmente naquele dia de chuva fria que enfrentei. Onde não havia ninguém e eu corri do lado certo e parei nos sinaleiros.
O rio encheu com as precipitações. As cerejeiras estão verdinhas, e atravesso o túnel arbóreo com muita alegria. Um pequeno cão desce do seu carrinho de bebê (sim, vários cães aqui trafegam assim) e late vivamente para mim. Rio. Estou feliz.
Logo na frente o campo de tênis e também os de beisebol, uma paixão nacional. Ao virar, o cemitério com lápides e sem cruzes.
Na volta tenho a visão deslumbrante do meu bairro e suas fábricas, ruas, o telhado da anciã, as plantações de matcha. Confiro meu relógio, estou dentro do tempo. Metade do percurso de 10 km. Um grupo de senhores me vê e eu falo com força:
- Gambare (がんばれ) ! E todos levantam, e me respondem em uníssono.
- Gambare !!!
Sensacional esse estímulo tipicamente japonês. E foi só o que vi e ouvi aqui. A delicadeza, o reconhecimento do nosso esforço em entender a cultura e as regras, a organização, o amor pelo silêncio.
E assim calado apesar da respiração acelerada, cheguei em casa, satisfeito com a última corrida no Japão que para mim se tornou um passeio, por sua ancestral herança que me cativou.
JB Alencastro e médico e escritor