JB Alencastro especialmente para o D9 Notícias.
Entre o nosso apartamento e a praia de Tanjong Tokong existe uma pracinha. Muito bem arborizada, cercada pelo ar marítimo do quebra-mar ao lado esquerdo e o fluxo de pedestres, corredores e turistas vindos da “promenade” do lado direito. É um dos meus lugares favoritos aqui na Ilha de Penang, Malásia.
Gosto de me sentar ali ao fim de tarde, depois do sol se por, voltando da areia, o que ocorre por volta das 19h30. E então a mágica acontece. Gatos. Eles surgem de toda parte. Não é uma invasão orquestrada. Eles claramente pertencem aquele lugar. Poucos miados. Descubro os pratinhos de alimentação. Algumas pessoas aparecem e colocam comida para eles.
São bem cuidados. Muitos tem coleira e algumas delas com sininho. O que eles detestam, segundo me confidenciou um felino residente no local. A coloração é muito sortida. Existem os laranjões, os brancos, as tricolores, os rajados, os pretos, os “frajolas”, os tigrados e também o líder deles, o siamês.
Devo lembrar que o mais comum aqui é o gato Thai. Que era o siamês original. Mais quadrado, não tão magro e com o rosto menos triangular do que como o que vemos no Ocidente. Mas ainda muito atlético, com as pontas das orelhas, nariz, patas e cauda bem escuros. E aqueles olhos azuis hipnotizantes. Você precisa ter muita personalidade para mirar no olho de um deles por mais de um minuto. Eles sustentam a encarada.
Só de observar vejo que cada um deles têm uma personalidade diferente. Uns se aproximam de mim, muitos mantém uma distância regulamentar e ainda outros simplesmente me ignoram. Mas estou ali. Socializando lentamente. Depois de alguns dias começo a fazer parte da comunidade. Ouço miados lânguidos. Vejo corridinhas exibicionistas. E até algumas demostrações de força e territorialidade.
Arrisco acariciar aqueles que mais se aproximam. Agacho de cócoras, hábito adquirido há um ano e pouco, e fico relativamente na linha de visão deles. Muitos aproveitam esse momento e sobem no banco onde eu estava. Sempre em silêncio, vou perscrutando ao redor para verificar se identifico algum novo bichano no pedaço.
E aí então vem o Cotoco. Assim o apelidei. Vou descobrir seu nome real. Ele não tem rabo. Aliás, tem um resquício. Isso lhe dá uma nobreza imediata. Caminha lento entre a gataria. É respeitado. Parece ser mais velho, é um pouco maior do que os demais. Só um pouco. Sua presença atiça minha curiosidade. Teria sido um acidente? Uma espécie de marca feita pelo tutor? Uma nova raça, que desconheço? Ou uma mutação genética ocasional? Como os gatos Manx?
Assim como veio, foi. Não deu nem tempo de me aproximar, apesar de que ele notadamente checou minha presença. Fiquei meio que decepcionado. Já estava na hora de ir jantar e quando me levantei e fui caminhando deparei-me com ele. Só. Mas ao aproximar-me, vi que era outro gato. Parecido, mas menor. Mais ágil. Conversamos. Falo seis línguas, mas gatês, ainda bem, é universal. Nos entendemos imeditamente.
Ele é filho do Kuching, vieram de Brunei. A maioria da família deles nasce assim, como muitos “gatuskos” do Sudoeste Asiático. Por uma semana me observaram. Aprovaram. Acharam minha humanidade engraçada. O pessoal disse também que eu era legal e que não oferecia perigo, mas também não trazia comida. Concluiram que o meu interesse era gatológico, assim como o deles era antropológico.
Na verdade a atração do local era eu. Quantas vezes julgamos e somos julgados pela aparência? Pelo comportamento nem sempre habitual? Necessário um tempo para acostumarmos a quaisquer pessoas, gatos e tal. E nem sempre, agradaremos a todos. Não que isso seja mau. Miau.
JB Alencastro é médico e escritor.